“Deixa-a! Ela guardou este bálsamo para o dia da minha sepultura” (Jo 12,1-11)
Naquele tempo, seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde vivia Lázaro, que ele ressuscitara. Deram ali uma ceia em sua honra. Marta servia e Lázaro era um dos convivas. Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de trair, disse: “Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?”. Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam. Disse, pois, Jesus: “Deixa-a! Ela guardou este bálsamo para o dia da minha sepultura. Os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tereis”. Muitos judeus souberam que ele estava ali e foram, não só por causa de Jesus, mas também para ver Lázaro, que ele ressuscitara dos mortos. Os sumos sacerdotes, porém, resolveram matar também Lázaro, porque, por causa dele, muitos judeus os deixavam e criam em Jesus. (Jo 12,1-11)
Leitura da Carta aos Hebreus (Hb 10,19-25)
“Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no santuário eterno, em virtude do sangue de Jesus. Ele inaugurou para nós um caminho novo e vivo através do véu, isto é, da sua humanidade. E temos um Sumo Sacerdote à frente da casa de Deus. Aproximemo-nos, pois, com coração sincero e plena confiança na fé, com o coração purificado da má consciência e o corpo lavado com água pura. Mantenhamos firme a profissão da nossa esperança, porque fiel é Aquele que prometeu. E consideremo-nos uns aos outros para nos estimularmos à caridade e às boas obras. Não abandonemos a nossa assembleia, como é costume de alguns, mas animemo-nos mutuamente, tanto mais quanto vedes aproximar-se o Dia.”
Nesta Segunda-feira Santa, o Evangelho nos mostra Maria de Betânia ungindo os pés do Senhor com bálsamo caríssimo. Jesus a defende: “Deixa-a! Ela guardou este bálsamo para o dia da minha sepultura”. O ato de amor de Maria prepara o corpo do Cordeiro para o sacrifício. Ao mesmo tempo, a Carta aos Hebreus nos revela o fruto desse sacrifício: “temos ampla confiança de poder entrar no santuário eterno, em virtude do sangue de Jesus” (Hb 10,19). O véu rasgado é a Sua humanidade; o caminho novo e vivo é a Eucaristia. No Sacrário, o Cordeiro continua a oferecer-Se, convidando-nos a aproximar-nos “com coração sincero e plena confiança na fé” (Hb 10,22).
São Tomás de Aquino recolhe os Padres que veem na unção de Maria o símbolo da Igreja que unge o Corpo de Cristo para a sepultura e para a ressurreição. O bálsamo derramado é imagem do sangue precioso que abre o santuário.
Santo Agostinho explica que Judas critica o desperdício porque não compreende o amor. Jesus, porém, aceita a unção como preparação para a Sua morte vicária: o Cordeiro se deixa ungir para ser imolado por nós.
Santa Teresa d’Ávila ensina que a alma unida ao Esposo derrama sobre Ele todo o perfume do seu amor. No Sacrário, somos chamados a repetir o gesto de Maria: ungir os pés do Cordeiro com a entrega total do nosso coração.
O Evangelho e a Carta aos Hebreus se iluminam mutuamente: a unção prepara a sepultura; o sangue abre o acesso. Na Eucaristia, o Cordeiro está vivo e glorioso, esperando que nos aproximemos “sem abandonar a nossa assembleia” (Hb 10,25), mas animando-nos uns aos outros na adoração.
Terço Meditado – Mistérios Gozosos Iluminados pelo Evangelho de Jo 12,1-11 e pela Carta aos Hebreus Hb 10,19-25, contemplamos os Mistérios Gozosos do Cordeiro de Deus que se prepara para o sacrifício e nos abre o santuário eterno na Eucaristia.
1. A Anunciação do Anjo a Maria
Maria recebe o anúncio e responde: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Este “sim” é o primeiro bálsamo derramado sobre o Cordeiro que ainda não nasceu. Como Maria de Betânia ungirá mais tarde os pés do Senhor para a sepultura, Maria de Nazaré unge com sua obediência o Corpo que será oferecido. Santo Agostinho vê nesta aceitação o início do caminho novo que o sangue de Jesus abrirá. Na Eucaristia, o Cordeiro se faz presente pelo mesmo “sim” da Virgem; aproximemo-nos do Sacrário com a confiança de Hb 10,19, coração purificado, sabendo que o véu da humanidade de Cristo nos permite entrar no santuário eterno. O “sim” de Maria nos ensina a derramar nosso próprio bálsamo de amor sobre o altar, onde o Cordeiro se imola diariamente. Que cada Ave-Maria desta dezena seja um ato de entrega, preparando-nos para a Páscoa que se aproxima.
2. A Visitação de Maria a Isabel
Maria corre ao encontro de Isabel e o Batista exulta no seio materno. O Cordeiro ainda oculto já faz saltar de alegria o precursor. Este encontro é prelúdio da caridade que Hb 10,24 nos pede: “consideremo-nos uns aos outros para nos estimularmos à caridade”. Como Maria de Betânia unge Jesus por amor puro, Maria de Nazaré leva o Cordeiro escondido para abençoar a casa de Isabel. São Tomás de Aquino afirma que a Visitação manifesta a presença do Verbo que virá ungir o mundo com Seu sangue. No Sacrário, o Cordeiro continua a “visitar” as almas; o caminho novo de Hb 10,20 nos convida a entrar sem medo. Cada saudação “Bendita sois vós” nesta dezena repete o gesto de Maria de Betânia: derramar perfume sobre o Cordeiro que se aproxima da cruz. Animemo-nos mutuamente, como exorta Hebreus, a permanecer na assembleia eucarística, onde o Cordeiro nos espera para nos encher de Seu bálsamo de misericórdia.
3. O Nascimento de Jesus em Belém
O Cordeiro nasce pobre, envolto em panos, deitado na manjedoura. O céu se abre e os anjos cantam. Este nascimento é a primeira imolação do Cordeiro que se faz pequeno para ser oferecido. Maria de Betânia guarda o bálsamo para a sepultura; Maria de Nazaré envolve o Corpo divino nos panos que prefiguram a mortalha. Santo Afonso de Ligório contempla a manjedoura como o primeiro altar onde o Cordeiro se oferece. A Carta aos Hebreus nos recorda que pelo sangue deste Cordeiro nascido temos “ampla confiança de poder entrar no santuário eterno” (Hb 10,19). Na Eucaristia, o mesmo Cordeiro se faz Pão para nós. São João da Cruz vê nesta pobreza o despojamento que nos leva ao silêncio adorador. Contemplando o Presépio, preparemos nosso coração para ungir o Sacrário com a mesma devoção de Betânia. Cada mistério desta dezena nos aproxima do “Dia” que se avizinha (Hb 10,25), convidando-nos a não abandonar a assembleia eucarística.
4. A Apresentação de Jesus no Templo
Maria e José apresentam o Cordeiro ao Pai no Templo; Simeão o reconhece como “luz para revelação às nações” e anuncia a espada que transpassará o coração de Maria. Esta apresentação é o oferecimento oficial do Cordeiro ao sacrifício. Maria de Betânia unge antecipadamente os pés que caminharão para o Calvário; Maria de Nazaré apresenta o Filho que será o Sumo Sacerdote de Hb 10,21.
Santa Teresa d’Ávila ensina que a verdadeira oração é apresentar-se com o Cordeiro, com coração sincero como pede Hb 10,22. Cada Ave Maria desta dezena seja um ato de humildade: “Derrama sobre mim Seu bálsamo, ó Cordeiro”. Assim nos animamos uns aos outros (Hb 10,24) a permanecer firmes na esperança eucarística, aproximando-nos do santuário com confiança plena.
5. O Menino Jesus no Templo entre os Doutores
O Cordeiro divino, com doze anos, senta-Se no meio dos doutores no Templo, ouvindo e interrogando. Maria e José O procuram cheios de angústia.
Mesmo criança, Jesus já revela Sua sabedoria divina e consciência de Sua missão. Anos mais tarde, Ele demonstrará conhecer profundamente o amor de Suas discípulas: quando Maria de Betânia derramar o bálsamo sobre Seus pés, Jesus dirá: “Deixa-a! Ela guardou este bálsamo para o dia da minha sepultura” (Jo 12,7). Assim, o Menino que se “perdeu” no Templo é o mesmo Cordeiro que aceita ser ungido para a sepultura. A Carta aos Hebreus nos convida a aproximar-nos com fé (Hb 10,22), pois o Sumo Sacerdote que está “à frente da casa de Deus” (Hb 10,21) é este Jesus que, desde sempre, caminha para o sacrifício. No Sacrário, o Cordeiro nos espera para que derramemos sobre Ele o bálsamo do nosso amor, como fez Maria de Betânia. Cada Ave-Maria desta dezena seja uma busca amorosa e uma unção do coração: “Recebe, ó Cordeiro, o perfume da minha entrega”. Assim mantemos firme a esperança (Hb 10,23) e não abandonamos a assembleia eucarística.
Ó Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, tem piedade de nós! No Teu Sacrário, recebe o bálsamo do nosso amor. Pelo Teu sangue, faze-nos entrar no santuário eterno. Vinde, adoremos o Cordeiro Imolado que vive e reina no Santíssimo Sacramento. Amém.

